Centros de cuidado paliativo já buscam minimizar dor de paciente terminal
André Bernardo

Rio - A resolução do Conselho Federal de Medicina que permite aos médicos suspender tratamentos que prolonguem inutilmente a vida de pacientes terminais — anunciada quinta-feira — oficializa prática, a ortotanásia, já utilizada por muitos profissionais. O cuidado paliativo, procedimento reconhecido pela Organização Mundial de Saúde desde 1990, busca oferecer a doentes sem chances de cura melhor qualidade de vida através do controle da dor e do sofrimento.
“Considero a resolução do CFM uma grande vitória porque vai deixar o médico mais confortável para fazer o que tem de ser feito. Mesmo assim, é bom que se diga que o ideal é só adotar o tratamento paliativo depois de esgotadas todas as possibilidades do tratamento curativo. Em alguns casos, não faz sentido tratar o intratável”, afirma Maria Goretti Sales Maciel, presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP).
Para ela, o tratamento paliativo só é indicado em casos de doenças graves, como câncer — responsável por 80% dos atendimentos nas cerca de 40 unidades de saúde que oferecem o serviço em todo o País —, Aids, insuficiência pulmonar crônica e alguns males neurológicos, progressivos e degenerativos, como Parkinson e Alzheimer. Mesmo assim, ressalva Maria Goretti, desde que o paciente ou a sua família concorde com a decisão, que deve constar no prontuário médico.
No Rio, a prática do cuidado paliativo é exercida no Hospital do Câncer 4, em Vila Isabel. Criado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) em 1998, o HC4 é a primeira unidade pública paliativa do Brasil e atende uma média de 1.150 pacientes por mês — 560 têm atendimento domiciliar. Segundo a vice-diretora da unidade, Teresa Reis, a decisão de escolher o melhor local para morrer é do paciente e sua família.
“Não temos a perspectiva de aumentar a sobrevida de pacientes terminais, que é normalmente de seis meses. O que buscamos é um modelo mais humanizado de atendimento, de preferência longe do ambiente hospitalar, normalmente mais depressivo. Em alguns casos, a família não tem estrutura emocional e prefere que o paciente seja atendido no hospital”, ressalva Teresa.
Iniciativa nasceu em hospital da Inglaterra
A primeira instituição destinada a oferecer cuidados paliativos a pacientes incuráveis e suas famílias foi o Saint Christopher Hospice, fundado em Londres, em 1967. Com o lema “Dar mais vida aos dias do que acrescentar mais dias à vida”, o hospital logo se tornou referência no atendimento a doentes em estágio terminal. “Para a medicina paliativa, manter o paciente ligado a aparelhos desnecessariamente é uma prática desproporcional. Não adotamos a entubação, por exemplo, porque ela só prolonga o sofrimento. Em casos de insuficiência respiratória, a dor é tratada com medicamentos e sedação, que trazem conforto ao paciente”, afirma Teresa Reis. Só na Inglaterra existem 470 dessas unidades. Nos EUA, são 5 mil.

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