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quarta-feira, outubro 01, 2003

"Viver não dói. O que dói é a vida que não se vive".
Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém
das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não
se cumpriram.
Por que será que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não
sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão
bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por
quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e
passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por
todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do
nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os
shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter
compartilhado e não compartilhamos. Por todos os beijos
cancelados, pela eternidade interrompida.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga
pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para
ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para
namorar.
Sofremos não porque a nossa mãe é impaciente conosco, mas por
todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a
ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse
interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia
sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está
sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca
chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
Talvez se iludindo menos e vivendo mais !!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da
vida está no amor que não oferecemos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se
do sofrimento, nos obriga a perder momentos de felicidade.
"A dor é inevitável, o sofrimento é opcional!"
(Emilio Moura, poeta, amigo de outro grande poeta, Carlos Drummond de Andrade)

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