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sexta-feira, novembro 09, 2001

DEU NO GLOBO DE HOJE:
Ipanema sem o Francês
Lúcio de Castro

Ipanema amanheceu mais triste ontem. Uma tristeza cortante que cruzou as fronteiras do bairro e da praia e atingiu uma parte do esporte brasileiro. Morreu no fim da tarde de terça-feira o Francês, de presumíveis 45 anos, um dos mais marcantes personagens do folclore ipanemense, morador de rua, local das areias da praia e quase integrante de várias comissões técnicas do vôlei nacional.

Como é de praxe para esses personagens da cidade, ninguém sabe ao certo qual era o nome dele. Ficou Francês porque falava fluentemente inglês e francês. Passava todo dia nos treinos das duplas de vôlei de praia ao longo da orla e acabou adotado pelos atletas. Mas nunca escondeu dos tantos jogadores que o ajudavam suas preferências: Tande e Emanuel e Isabel e Maria Clara.

— Ficou uma tristeza muito grande. Era um personagem de Ipanema e ligado a todos nós. Era um cara muito legal que tinha uma índole maravilhosa. Vai deixar uma grande saudade e a cada dia quando chegarmos para treinar, vamos sentir falta dele. Ele era uma história incrível, mudou a vida por amor — afirma Tande.

Tande refere-se ao verão de 1986. Francês tinha uma barraca de bebidas no trecho da praia entre as ruas Garcia D’Ávila e Maria Quitéria e levava vida normal, até conhecer uma turista espanhola, com quem teve um caso. Quando o verão acabou, a espanhola foi embora sem deixar notícia e, apaixonado, Francês pôs-se a beber. Perdeu tudo e virou um morador de rua, mas recusava ser chamado de mendigo.

— Francês era um dos grandes personagens de Ipanema, daqueles que viram lenda. E acompanhava como poucos o esporte, o nosso cotidiano. Uma grande figura — conta Isabel, que toda manhã era saudada com sua filha Maria Clara pelo amigo.

— Isabel e Isabelzinha, lindas — repetia.

O personagem foi maior do que a orla. Mesmo os de fora queriam saber sempre como andava Francês. Quando estavam jogando nos Estados Unidos, Anjinho e Loiola buscavam notícias sobre ele. Ao receber a notícia, o técnico do Rexona, Hélio Griner, buscou informações com os amigos por telefone, de Curitiba.

— Fiquei triste por não estar no Rio para a última homenagem.

Em Ipanema, na areia, nos bares e nas quadras não faltaram homenagens ontem. Na Garcia D’Ávila, a bandeira do Brasil hasteada todo dia pelo barraqueiro Pelé ficou a meio mastro, a pedido dos atletas. No Empório, bar da Maria Quitéria onde o Francês ia ver a turma do vôlei de noite, os brindes se repetiam e nos quiosques da praia o assunto era único. Tande suspendeu o último treino antes de viajar para Recife.

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